A temperatura política subiu nos bastidores da direita brasileira. Em um desabafo público que pegou aliados de surpresa, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) utilizou suas redes sociais para expor um profundo racha familiar e político com o senador Flávio Bolsonaro (PL), atual pré-candidato à Presidência da República nas eleições de outubro de 2026.
Em vídeos que somam cerca de uma hora de depoimento, Michelle revelou detalhes de uma briga que se arrasta desde o final de 2025, utilizando termos fortes como "apunhalada", "maltratada" e "humilhada".
O desentendimento central entre a ex-primeira-dama e o senador envolve a estratégia de alianças do PL no Ceará para as eleições locais.
A Aliança Polêmica: A crise estourou após Michelle criticar publicamente, durante um comício em Fortaleza, a aproximação articulada pelo deputado André Fernandes (PL-CE) com o ex-governador Ciro Gomes (PSDB).
O Motivo do Descontentamento: Michelle relembrou que Ciro Gomes foi um dos principais artífices do processo que culminou na inelegibilidade de Jair Bolsonaro, além de já ter desferido ofensas graves contra a família.
Disputa pelo Senado: O racha também envolve indicações locais. Enquanto Michelle apoia a deputada federal Priscila Costa (PL) para a disputa ao Senado, o grupo de André Fernandes tenta emplacar o nome de seu pai, o deputado estadual Alcides Fernandes (PL).
"Fazer aliança com o homem que é contra o maior líder da direita, assim não dá", disparou Michelle na ocasião, gerando forte incômodo na ala política liderada por Flávio, que buscava o apoio de Ciro para encorpar seu palanque presidencial no estado.
Durante o pronunciamento, a ex-primeira-dama evitou usar o sobrenome "Bolsonaro" ao se referir a Flávio, tratando-o estritamente como "meu enteado" ou "pré-candidato".
Michelle relatou que, após manifestar sua discordância sobre o palanque cearense, recebeu um retorno telefônico ríspido do senador. "Ele foi muito ríspido, me desrespeitou e me maltratou ao telefone. Disse que seria melhor eu ficar fora das decisões do partido, que eu havia chegado ontem e não entendia nada de política", desabafou.
A ex-primeira-dama garantiu que sabe de onde partem os vazamentos de informações que tentam diminuir sua relevância política. Desde o telefonema agressivo, os dois cortaram relações diretas. "Eles me tratam como se eu fosse idiota, mas eu sei mais do que eles pensam", completou.
Sem citar diretamente o nome do deputado Eduardo Bolsonaro (que cumpre agenda no exterior), Michelle afirmou que vem sofrendo ataques diários nas redes sociais promovidos por um grupo baseado fora do país conectado a Flávio. Segundo ela, os ataques — que tentam desvinculá-la do sobrenome Bolsonaro — têm afetado psicologicamente sua filha adolescente, Laura.
Michelle negou os boatos de que estaria exigindo desculpas públicas para subir no palanque de Flávio, ressaltando que já "liberou o perdão", mas deixou claro o distanciamento prático: "Flávio vai à minha casa toda semana. Se ele realmente quisesse falar comigo, já teria falado."
A resposta de Flávio Bolsonaro misturou ironia inicial com tentativas posteriores de panos quentes. No mesmo dia do desabafo, o senador realizou uma transmissão ao vivo no YouTube antes da partida entre Brasil e Escócia pela Copa do Mundo de 2026. Usando uma máscara do jogador Neymar, minimizou o caso: "Hoje é dia de jogo, nada nem ninguém me aborrece. Vamos tratar de futebol."
Na live, Flávio destacou que havia visitado o pai, Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar, afirmando que o ex-presidente está "forte e com a cabeça no lugar".
Contudo, após a repercussão negativa, o tom mudou. Nas redes sociais, o parlamentar divulgou uma nota pública buscando conter os danos:
Pedido de Desculpas: "Em nenhum momento ofendi ou tive a intenção de ofender a Michelle. Se o fiz em algum momento, mais uma vez, peço desculpas."
Justificativa de Ruído: O senador alegou ter ligado para Michelle na manhã daquela quarta-feira para convidá-la para uma reunião do PL Mulher, mas não obteve retorno, sendo pego de surpresa pelo vídeo.
Momento Delicado: Flávio atribuiu o clima tenso à angústia familiar provocada pela situação jurídica e pelo confinamento do ex-presidente.
Nos bastidores do Partido Liberal, o sinal de alerta foi ligado em nível máximo. Interlocutores da campanha admitem forte preocupação com o impacto do vídeo em dois nichos cruciais para o eleitorado da direita: as mulheres e os evangélicos.
Michelle Bolsonaro consolidou-se como a principal liderança do PL Mulher e possui enorme capilaridade nesses setores. Ao se posicionar publicamente como uma figura humilhada pelo próprio enteado, ela atrai para si a narrativa de vítima e guardiã da verdadeira lealdade a Jair Bolsonaro, deixando Flávio exposto ao desgaste de parecer focado apenas em pragmatismo político e "egoísmo", em detrimento dos valores familiares defendidos pela base conservadora.