Economia ECONOMIA
Antecipação de 90% do ICMS pressiona empresas e preocupa setor produtivo do RN
Atacadistas, representantes da indústria e do agronegócio alertam para impactos no capital de giro, enquanto o Governo do Estado afirma que a medida não aumenta a carga tributária
21/08/2026 07h21
Por: Radialista Jair Bala Fonte: Radialista Jair Bala RN
Foto: Marcelo Casal Jr

A determinação do Governo do Rio Grande do Norte para antecipar o recolhimento de 90% do ICMS relativo às operações realizadas em agosto e setembro preocupa representantes do setor produtivo. Empresários e entidades avaliam que a medida poderá comprometer o fluxo de caixa e dificultar o planejamento financeiro das empresas.

A antecipação foi estabelecida pela Portaria nº 817/2026, da Secretaria de Estado da Fazenda. A norma alcança atacadistas, centrais de distribuição e contribuintes responsáveis pelo recolhimento do imposto por substituição tributária.

Essas empresas deverão antecipar para 1º de outubro o pagamento correspondente a 90% do imposto devido ou retido nos dois meses anteriores. A principal preocupação é com a concentração de um desembolso elevado em um único período, num cenário marcado por juros altos, custos crescentes e desaceleração do comércio.

Empresas temem perda de capital de giro

Na prática, a antecipação modifica o momento em que o dinheiro precisa sair do caixa das empresas. Embora não represente formalmente um aumento da alíquota, a exigência reduz temporariamente os recursos disponíveis para despesas operacionais, fornecedores, salários e investimentos.

O Sindicato do Comércio Atacadista e Distribuidor do Rio Grande do Norte avalia que o impacto dependerá da capacidade financeira de cada empresa.

O advogado da entidade, Igor Medeiros, afirmou que a medida interferirá no fluxo de caixa dos atacadistas. Segundo ele, parte das empresas já começou a se organizar, mas alguns estabelecimentos poderão enfrentar dificuldades para cumprir o novo prazo.

O setor também considera curto o período de preparação, já que a mudança teria sido comunicada com cerca de 15 dias de antecedência.

Agropecuária alerta para efeitos em cadeia

A Federação da Agricultura, Pecuária e Pesca do Rio Grande do Norte recebeu a medida com grande preocupação. Para a entidade, a retirada antecipada de recursos do caixa empresarial ocorre num momento de menor atividade comercial e dificuldade de acesso a crédito mais barato.

A Faern avalia que os efeitos podem ultrapassar as empresas diretamente incluídas na portaria. O impacto poderá chegar a outros setores por meio das cadeias de fornecimento e distribuição, incluindo atividades ligadas à agropecuária.

A entidade defende uma reavaliação da medida e a manutenção do diálogo entre o Governo do Estado e as representações empresariais.

Indústria critica transferência de pressão financeira

A Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Norte também manifestou preocupação. Para o presidente da Fiern, Roberto Serquiz, a antecipação melhora a disponibilidade financeira do Estado no curto prazo, mas transfere a pressão de liquidez para o setor privado.

Na avaliação da entidade, as empresas poderão ter menos capital de giro e enfrentar aumento dos custos financeiros. Negócios com menor reserva de caixa podem precisar recorrer a empréstimos para cumprir suas obrigações, ficando sujeitos aos juros elevados do mercado.

Percentual subiu de 50% para 90%

A antecipação do ICMS já havia sido adotada anteriormente no Rio Grande do Norte. Em outubro de 2025, o Governo do Estado determinou o recolhimento antecipado de 50% do imposto para empresas beneficiadas por incentivos fiscais.

Na ocasião, a medida alcançou participantes do Programa de Estímulo ao Desenvolvimento Industrial do RN e contribuintes enquadrados em regimes especiais destinados a atacadistas e centrais de distribuição.

A principal diferença agora é a elevação do percentual. A nova determinação prevê a antecipação de 90% do ICMS devido ou retido nas operações de agosto e setembro.

Medida ocorre em meio à crise financeira estadual

A decisão foi tomada num período de dificuldades nas contas públicas do Rio Grande do Norte. O Estado enfrenta frustração de receitas superior a R$ 745 milhões em 2026, além de contingenciamentos e atrasos em pagamentos de parte dos aposentados e pensionistas nos meses de julho e agosto.

Para representantes empresariais, esse contexto reforça a percepção de que a antecipação busca aliviar o caixa estadual. O Governo do RN, porém, afirma que a medida não causa prejuízo aos contribuintes.

Em nota, a Sefaz explicou que o recolhimento ocorre somente após a apuração do imposto devido. A secretaria também informou que o valor antecipado será integralmente compensado no próprio mês e não caracterizará antecipação de receita entre meses diferentes.

A pasta acrescentou que a legislação permite ao Poder Executivo definir e alterar as datas de pagamento dos tributos de acordo com as necessidades de gestão e fluxo de caixa do Estado. A Sefaz citou ainda entendimento do Supremo Tribunal Federal sobre essa competência.

O setor produtivo aguarda novos posicionamentos do Governo do Estado e cobra diálogo para reduzir os possíveis efeitos da medida sobre as empresas e a economia potiguar.

 

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