
A disputa pelo Governo do Rio Grande do Norte em 2026 já soma nove pesquisas eleitorais contestadas na Justiça, mas apenas dois casos saíram da esfera administrativa e foram parar na Polícia Federal: justamente os dois levantamentos que apontavam o ex-prefeito Álvaro Dias (PL) em primeiro lugar.
A apuração criminal envolve os institutos Ipsensus e Média Inteligência em Pesquisa. Ao contrário de uma simples suspensão por falha técnica de cadastro, o Ministério Público Eleitoral e a Justiça apuram crimes como divulgação de pesquisa fraudulenta, falsidade ideológica e manobras para travar a fiscalização dos partidos.
O que a Justiça encontrou nos dados
A abertura do inquérito contra o Ipsensus decorreu de inconsistências detectadas na base de dados entregue ao TRE-RN, após cobrança de partidos adversários:
Ritmo humanamente impossível: um único pesquisador teria aplicado 620 questionários presenciais em apenas cinco dias; outro teria passado por 45 municípios para fazer 477 entrevistas.
Dados duplicados e sem GPS: foram localizados formulários repetidos com códigos idênticos e ausência total de registros de geolocalização.
Estrutura suspeita: equipe com códigos cruzados, estatístico com duplicidade de registro profissional e indícios de que o instituto atuava como empresa de fachada para a Média Inteligência.
No caso da Média (contratada pelo portal O Potengi), a Procuradoria Regional Eleitoral apontou que 450 entrevistas foram registradas em 2 de julho, um dia antes de o levantamento ser formalizado no sistema da Justiça. Além disso, as coordenadas de GPS enviadas indicavam pontos a centenas de quilômetros das cidades onde as pessoas deveriam ter sido ouvidas.
Apesar das investigações policiais, nenhum dos dois levantamentos teve a veiculação barrada pela Justiça até o momento.
Multas e suspensões atingem os dois lados
Embora apenas os casos ligados a Álvaro tenham virado caso de polícia, as punições administrativas atingiram ambas as pré-campanhas:
Pesquisas pró-Álvaro barradas: quatro levantamentos acabaram suspensos por problemas amostrais — três do Instituto Veritá (com distorções na escolaridade dos entrevistados e datas de divulgação) e um do Affare Institute (com discrepância na renda declarada). As multas somadas superam R$ 150 mil.
Pesquisas pró-Allyson barradas: quatro consultas que davam vantagem a Allyson Bezerra (União Brasil) também caíram por falhas técnicas, como falta de detalhamento dos bairros ou erros de método, envolvendo Data Census, Seta, Item e DataVero. Em nenhum desses casos a Justiça apontou indício de dolo ou fraude deliberada.
Até o momento, ninguém foi indiciado ou condenado. A Polícia Federal segue na fase inicial de coleta de provas para determinar se houve fabricação deliberada de dados eleitorais.