
A governadora do Rio Grande do Norte, Fátima Bezerra (PT), afirmou que trabalha para consolidar uma maioria na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte (ALRN) e, assim, viabilizar a eleição de um nome alinhado ao seu grupo político em uma eventual eleição indireta para o comando do Estado.
A declaração foi dada em entrevista ao programa Band Mulher, da TV Band RN, na quarta-feira, 11. Segundo a governadora, a articulação política busca assegurar a continuidade do projeto administrativo escolhido pela população nas urnas em 2018 e referendado em 2022.
“Estamos trabalhando firme e incansavelmente para que possamos ter uma correlação de forças políticas na Assembleia Legislativa adequada para que a gente possa eleger o candidato apresentado por nós”, afirmou.
O Rio Grande do Norte poderá ter uma eleição indireta para governador e vice-governador caso sejam confirmadas as renúncias de Fátima Bezerra e do vice-governador Walter Alves (MDB). Para disputar as eleições de outubro, ambos precisam deixar os cargos até 4 de abril.
Fátima reafirmou que pretende concorrer ao Senado Federal, enquanto Walter Alves é apontado como pré-candidato a deputado estadual. Se a dupla deixar os cargos, caberá aos 24 deputados estaduais escolher, de forma indireta, um governador e um vice para cumprir o restante do mandato até 5 de janeiro de 2027.
Na entrevista, a governadora sustentou que o nome escolhido para um eventual mandato tampão deve estar vinculado ao grupo político que venceu as eleições estaduais de 2018 e 2022.
“Eu tenho uma responsabilidade com o Estado. Em 2018, a maioria do povo do Rio Grande do Norte foi às urnas e escolheu a governadora. Em 2022, foi às urnas novamente e me reelegeu governadora. Por isso, a gente tem trabalhado no sentido de que seja respeitada essa vontade do povo nas urnas”, declarou.
A avaliação do entorno político de Fátima é de que o sucessor, em caso de eleição indireta, deve garantir continuidade administrativa e política ao atual governo.
Fátima Bezerra voltou a defender publicamente o nome do secretário estadual da Fazenda, Cadu Xavier, como candidato do grupo para a disputa indireta. Segundo ela, o auxiliar reúne experiência de gestão, capacidade técnica e participação direta na construção do atual governo.
“O nosso candidato é Cadu Xavier. Uma candidatura que tem muito presente e muito futuro político. Talento, sabedoria, experiência. Está comigo desde a época da transição, antes da primeira eleição, em 2018. É um servidor muito capacitado, é um excelente gestor e está preparado, sem dúvida nenhuma, não só para dar continuidade ao nosso trabalho, mas, sobretudo, avançar”, disse.
Apesar da defesa enfática, a governadora reconheceu que outras alternativas também estão no radar do grupo político.
Ao ser questionada sobre o nome de Francisco do PT, respondeu: “É um dos nomes. Outros eu não vou dizer não”.
Diante das resistências enfrentadas por Cadu Xavier dentro da Assembleia, aliados da governadora admitem a possibilidade de Fátima Bezerra não renunciar ao cargo e concluir o mandato. Nesse cenário, o PT precisaria redefinir sua candidatura ao Senado.
Mesmo assim, durante a entrevista, Fátima reafirmou a disposição de disputar a vaga na Câmara Alta. Segundo ela, a candidatura integra uma estratégia nacional do campo da esquerda para reforçar presença no Congresso e enfrentar o bolsonarismo, especialmente no Senado.
“Há o desejo não só do presidente Lula, não só do PT nacional, mas das forças no campo democrático popular que eu disponibilize o meu nome para o Senado. Porque a eleição eleitoral se tornou muito estratégica, principalmente o Senado”, afirmou.
Ela acrescentou que a disputa tem dimensão estadual e nacional. “Disputar o Senado hoje significa, primeiro, reafirmar o nosso compromisso com os interesses do Estado, mas também o nosso compromisso com a estrutura democrática, com a defesa da democracia”, completou.
Na mesma entrevista, Fátima Bezerra também fez críticas à oposição no Rio Grande do Norte. Sem generalizar todos os adversários, ela afirmou que parte expressiva da oposição atua de forma “desqualificada” e baseada em ataques pessoais.
Segundo a governadora, esse comportamento não contribui com o debate público e, em alguns casos, prejudica o próprio Estado.
“O que nós temos visto aqui no Rio Grande do Norte é uma oposição, uma parte, boa parte dela — também não generalizo tudo — que se alimenta de origens bolsonaristas. Ela faz uma oposição de uma maneira muito desqualificada. É criticar por criticar”, declarou.
Fátima também afirmou que há episódios de misoginia e desrespeito nos ataques dirigidos a ela. “Eu vejo uma misoginia sem tamanho. Os ataques são elevados de canalhice, de desrespeito. Ou seja, é uma oposição muito virulenta, desqualificada”, disse.
Além disso, acusou setores oposicionistas de disseminarem informações falsas contra sua gestão. “É mentirosa. Ficam se alimentando de fake news. É uma fake news atrás da outra”, afirmou.
Apesar do tom crítico, a governadora ponderou que a oposição tem papel importante na democracia quando atua com responsabilidade. “Uma oposição quando é feita com senso de responsabilidade, com espírito público, ela inclusive ajuda o governo”, declarou.
Enquanto o cenário político avança, a Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte instalou, também na quarta-feira, 11, a comissão especial que vai analisar a PEC nº 03/2022, proposta que trata dos procedimentos em caso de vacância dupla no Governo do Estado nos dois últimos anos de mandato.
A proposta busca adequar a Constituição estadual ao entendimento já firmado pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
Pelas regras atuais do Estado, em caso de vacância dupla no último ano do mandato, o comando do Executivo seria assumido até o fim do período pelo presidente da Assembleia Legislativa ou, em caso de recusa, pelo presidente do Tribunal de Justiça.
Esse entendimento, no entanto, foi invalidado pelo STF em março de 2025. A decisão estabeleceu que, havendo vacância dupla nos dois últimos anos do mandato, o Estado deve realizar nova eleição — direta ou indireta — para escolher governador e vice. No caso do último ano de mandato, conforme a Constituição Federal, o procedimento deve ser por eleição indireta.
Durante a instalação da comissão, os parlamentares elegeram por unanimidade o deputado Gustavo Carvalho (PL) para a presidência. A vice-presidência ficará com a deputada Cristiane Dantas (Solidariedade).
O relator da proposta será o deputado Francisco do PT, que terá 10 dias para apresentar parecer. A votação do relatório está prevista para 25 de março, às 9h.
Também integram a comissão os deputados Isolda Dantas (PT) e Hermano Morais (PV).
Mesmo antes da conclusão da mudança constitucional, a ALRN aprovou em 4 de março um projeto de resolução com as regras para a eventual eleição indireta no Estado. O texto ainda aguarda promulgação do presidente da Casa, deputado Ezequiel Ferreira (PSDB).
De acordo com a proposta, a eleição indireta deverá ocorrer em até 30 dias após a vacância dupla.
Com isso, o Rio Grande do Norte se aproxima de uma definição política e institucional relevante, caso se confirmem as saídas de Fátima Bezerra e Walter Alves para a disputa eleitoral de 2026.
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